terça-feira, 25 de junho de 2013

La Cartomancienne, estereótipos e representações

       Mystisches Lenormand, 
de Regula Elizabeth Fiechter,   Os Antepassados, carta adicional.



Mesmo que os mais renomados ocultistas  do final do século XIX ( Eliphas Levi, Papus, Mac Gregor) não admitissem, denegrindo aqui e acolá a figura da mulher - considerand0-a  como bruxa, burra e louca, a Cartomância sempre fez parte do mundo feminino, era ( e ainda o é!) uma Arte oracular que as mulheres tão bem dominam, desvendando e decifrando  com  magnificência o simbolismo das cartas.

Quando pensamos na figura da cartomante de outrora,  qual a imagem que nos vem à mente? Vamos enumerar as seguintes opções: 1) a imagem da velha senhora, mal vestida às vezes, de aparência desagradável, compartilhando tanto o estereótipo da bruxa  como da "boêmia", a cigana com um lenço  amarrado à cabeça, saia rodada, pés descalços ao relento; ou 2) a figura de uma dama bem vestida, em seu gabinete de consulta, paramentada com seus instrumento oraculares ( cartas, bola de cristal, etc.) ?  







Bem, se a segunda opção parece-lhe a mais apropriada para uma cartomante, isto se deve tão somente àquela que viria a ser considerada como a  maior cartomante  de todos os tempos, Mademoiselle Lenormand! Isso mesmo!

Contudo quero lembrar que ambas representações, ainda que pareçam antagônicas, em certos momentos se confundem tanto no nosso imaginário quanto na realidade: quantos ainda nos nossos dias atuais continuam a reproduzi-lás, alimentando essa aura de mistério, que por sua vez  contribui para fomentar certos preconceitos, (quantas pessoas em nossos dias atuais,  de maneira clandestina e envergonhada, buscam consultas com uma cartomante, simplesmente porque consideram uma regressão a práticas primitivas?)



Voltando à célebre cartomante, ao que tudo indica, para ela não bastava ser a melhor diseuse de bonne ventura*, era preciso aparecer! Portanto, foi Mlle. Lenormand que construiu essa representação tão diferente daquela que os  artistas da época estavam acostumados a retratar a cartomante, ou seja, sempre associando ao mundo da bruxaria, dando origem portanto a certo distanciamento  das representações de mulheres feias e maltrapilhas.

Logo, que representação e imagem tenho eu da Sibilla de Allençon no momento de suas consultas? Uma bela dama, bem vestida, inspirando confiança! Contudo, mesmo com sua impecável aparência, não se viu livre do  estereótipo de "bruxa maléfica": Mes prémonitions ne sont  pas bien vus à Alençon" **, dizia ela. Foi obrigada a se mudar para Paris...

Em 1790, com apenas 21 anos, em meio ao rebuliço da Revolução Francesa, Mlle. Lenormand abre seu gabinete de consulta, e como a adivinhação é prática proibida, acima de sua porta apenas se pode ler "Mademoiselle Lenormand: librairie" ***.  Dizem os cronistas da época que era um belo apartamento por sinal, bem situado no bairro de Saint-Germain-des- Prés, um lugar por excelência ligado à vida intelectual e cultural de Paris, e por isso bastante conhecido e frequentado.

Durante muitos anos é aqui que ela descortina em suas cartas a vida  de pequenos e grandes personagens, revolucionários, príncipes e imperadores, conhecendo em sua vida diversas vicissitudes, guardando em seu coração um grande sonho: que sua cidade Natal, Alençon, não a considerasse  como uma bruxa, mas  como uma mulher das "hautes sciences divinatoires" ****.

Bem, ela morreu, não realizou seu sonho. Após sua morte, vários baralhos  foram editados levando seu nome, enriquecendo os fabricantes de cartas de toda a Europa.

Mas justiça lhe seja feita, porque sem Mlle. Lenormand, a Cartomância jamais teria alcançado tamanha reputação, e jamais seria considerada como uma Arte, que como toda atividade artística, para se alcançar a perfeição e maestria, somente através da prática, do estudo e da reflexão.

Hoje, 25 de junho, dia do Baralho Cigano,  e sempre, eu posso dizer: 

"Mlle Lenormand seu sonho se realizou!!!"



Socorro van Aerts.




* aquela que diz a boa ventura.
** Minhas premonições não são bem vistas em Alençon.
*** Senhorita Lenormand, livraria.
**** Grandes Ciências Adivinhatórias.


Referências bibliográficas:

A Arte de Interpretar as Cartas, Madame Esther.
Traité des Arts Divinatoires, Edouard Brasey.
La curieuse destinée de Mademoiselle Lenormand - Alençon,  http://www.ouest-france.fr
Mademoiselle Lenormand: Voyante de Louis XVI à Louis-Philippe, Dicta Dimitriadis.
Manifesto para o futuro do Tarô - Nei Naiff,  http://www.clubedotaro.com.br/site/h22_3_neinaiff.asp 





2 comentários:

  1. Amei!!! Pelo que diz e pelo que é, e principalmente por que ratifica claramente a razão que vocês tiveram para escolher essa data como marco para o dia do baralho lenormand...

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  2. Obrigada Luciana! Por conta de você e todas nós, Cartomanciennes, o sonho de Mlle. Lenormand se realizou! Bjos!

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