terça-feira, 29 de novembro de 2011

O ungüento das bruxas

Não é de hoje que as  bruxas  são descritas como seres conspiradores do mal, agentes do mundo demoníaco, e isto se deve em parte ao arquivos e narrativas à respeito de suas práticas e crenças  oriundas de fontes hóstis, tal como a Inquisição e os caçadores de bruxas.

Um dos momentos mais importantes para as cerimômias xamânicas das bruxas era a preparação e o uso de supostos ungüentos de vôo. É dito que estas pomadas ou ungüentos
(habitualmente descrito como tendo uma cor esverdeada), uma vez friccionados sobre o corpo nu da bruxa, permitia-lhe de  voar. Nas montanhas do Afeganistão, a constatação do uso de um ungüento similar, contendo o cogumelo Amanita muscaria - que possui propriedades psicoativas e alucinógenas, é um fato bastante recente.
No Uzbequistão e em outras partes da Ásia Central proxímas ao Afeganistão, o extrato de Cannabis é friccionado sobre a pele como um óleo de massagem.  O uso de substâncias psicoativos também foi uma prática comum  entre os Astecas, com seus ungüentos à base  de tabaco, insetos "tóxicos" e demais plantas alucinógenas.

A confecção destes ungüentos é muita antiga. Segundo Ovídio, em sua obra Metamorfoses, as mulheres Citas usavam uma espécie de bálsamo para se transformarem em pássaros, uma atividade tipicamente xamânica. Pamphile,  uma bruxa má em O asno de ouro, obra de Apuleio, escrita no século II, se transformava em uma coruja com  a ajuda de um ungüento de vôo. Claro, que este vôo não era no sentido real do termo, mas uma experiência alucinatória induzida por estas  substâncias psicoativas.  Assim,  reais e poderosas  eram as sensações causadas por estas drogas que se fazia acreditar realmente num deslocamente do corpo físico.

Viajar sobre uma vassoura

Voando sobre uma vassoura,  se transformando  em um pássaro ou  em qualquer outra criatura, a bruxa encontrava uma maneira para se render aos sabbats, nome dado às reuniões noturnas de bruxas, demônios e outros espíritos onde dançavam freneticamente e praticavam orgias sexuais. Em numerosas narrativas se conta que as bruxas aplicavam sobre todo o seu corpo  um ungüento de vôo, mas alguns pesquisadores hoje em dia se perguntam sobre a eficácia da penetração das drogas pela pele e seu teor de toxicidade sobre quem  fazia tal uso. Supõe-se que os efeitos psicoativos eram mais intensos si o ungüento fosse introduzido pela vagina, se aplicando sobre a mucosa por meio de um bastão ou cabo de vassoura! Isto explica não só a eficácia dos unguëntos, como também as muitas fantasias  sexuais sobre os sabbats. Uma outra experiência comum às bruxas, segundo as narrativas dos inquisidores, era a de relações sexuais com o "diabo", seu pênis era dolorosamente frio. O que dá a entender que tal narrativa em  muito se assemelha com a introdução do cabo de vassoura na vagina, acompanhado de rápidas mudanças de temperatura do corpo provocadas pelos os efeitos das drogas.

Se o método de administração de ungüentos por via vaginal  pode ter sido uma prática corrente, então se acredita  que por via anal também,  pois muito herejes inimigos da igreja foram acusados de estimular a sodomia - os maniqueus, os albigenses, os cátaros e bogomilos...  De fato, o termo em inglês buggery (em português, sodomia) vem de Bulgarus (Bulgária), a pátria dos bogomilos.

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Enfim, na história da bruxaria existem inúmeros relatos  sobre o uso dos ungüentos  de vôo, mas somente uma parte ínfima dentre estes fazem alusão aos ingrediente em realidade. É muito provável que as bruxas, como os xamâs de nossos dias atuais, guardavam suas próprias receitas, não por medo da perseguição, mas antes num objetivo de adquirir mais status e aumentar sua reputação entre os seus semelhantes. Mas conseguimos ter o conhecimento de algumas receitas eficazes. Dentre estas misturas um tanto bizarras e sinistras, como gordura humana,  cérebro de gato e sangue de morcego, encontramos certas plantas  singulares que aparecem muitas vezes em decocções conhecidas pelas suas propriedade alucinógenas.

Portanto, quimicamente falando, as visões e as sensações de vôo das bruxas eram induzidas por um pequeno número de plantas chaves, cuja a maioria  pertencem à família da batata, as Solanaceaes: as mais iportantes  são aquelas que fazem parte da chamada "trindade infernal" ( a Hyoscyamus, a Beladona e a Mandrágora). Outras plantas alucinógenas e narcóticas  também fazem parte  da composição de ungüentos como  a Datura, o Helleborus negro, o Calamo aromatica, o Ópio e a Maconha. O Aconitum vulparia, conhecida também por acônito, capacete-de-júpiter e matalobos, quase invariavelmente faz parte  de todas as receitas  de ungüentos  e se supõe que esta planta permitia a quem utilizasse  ter a impressão de possuir uma pele  ou plumas no lugar de sua pele. Talvez isto explique certos relatos que falam sobre a transformação em pássaros, assim como a lenda do lobisomen. Aliás, a idéia da licantropia, a transformação do homem em lobo, devido ao uso de drogas não é uma descoberta da era moderna. Já em 1599, Chauvincourt escrevia que todas as metarmófoses eram ilusões causadas por pós, porções e ervas tóxicas.
Em suma, existem muitas razões para se acreditar que os ungüentos das bruxas demonstram que as preparos  psicoativas eram muito significativas na cultura européia.








Fonte: The Encyclopaedia of Psychoactive Substances, Richard Rudgley.
Tradução e adaptação: De Keizerin.






Paz e Luz!







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