sábado, 23 de abril de 2011

Ervas e Óleos essenciais na Magia...




"De onde vem este delicado cheiro? 
Por amor a ele, gostaria de morrer"

O Decameron

Assim falava Boccaccio do manjericão, uma erva misteriosa, de odor suave, que ainda nos nossos dias atuais é sagrada para os hindus e mulsumanos, e que na Idade Média fazia parte do rol de ervas mágicas. Dizem os antingos que se fosse recolhido o orvalho num pequeno flaconete nas primeiras horas do dia de São João, 24 de junho, e  se a  este orvalho fosse acrescentado folhas de manjericão, esteja certo que este preparo aromático teria poder de afastar as más influências aonde fosse aspergido. Podemos citar outras propriedades do manjericão como atrair a simpatia para quem leva consigo um raminho dele, facilitar o trabalho intelectual e combater o nervosismo e a inquietação.
São tantas as obras e narrativas que pelo decorrer dos séculos exaltam o poder das ervas e resinas. A realidade e o simbolismo deram origem a uma trama ao longo da história, nos permitindo conhecer sobre a influência  do Mundo Vegetal sobre   a vida dos seres, humanos ou não, constuindo um capítulo à parte da história da Magia.
Esta Magia sobre a qual falamos foi mencionada pela primeira vez numa inscrição egípcia da 11a. disnatia ( aproximadamente  2300 a. C.), nos tempos em que o rei o Salomão enviava  uma expedição pelo deserto até o Mar Vermelho ao país de Punt ( Etiópia) para buscar especiariais. Não deixamos de observar que é nesta região que encontramos o Olíbano, conhecido também como "Incenso Puro" ou Franquincenso, muito usado nos rituais religiosos.
O uso das ervas  se expandiu rapidamente em toda a Bacia Mediterrânea e tão logo, o conhecimento e a experiência deram origem às fórmulas complexas à base de resinas e misturas perfumadas que serviam tanto para o cuidado do corpo como para honrar os "deuses". E se acrescentarmos aqui o poder dos Números, o poder das ervas, sua ação e efeito se viam intensificados, dando resultados bastante satisfatórios.

No Egito Antigo, Rá era adorado ao nascer do Sol ao odor ardente do Olíbanos, ao meio-dia,  se empregava a  Mirra e  ao pôr do Sol, o "Kyphi", uma mistura feita de exatamente dezesseis ingredientes, que durante a sua  preparação, se liam textos sagrados.
Praticamente quase todos os cultos religiosos adotaram o uso de ervas em seus rituais. O próprio Yahvé, no Código Sacerdotal dos Hebreus (Exôdo 30 - 7), assim prescreve, dando até a Moisés a composição necessária: 
"Aarão queimará sobre o altar o incenso aromático  pela manhã (...) e quando, à tarde , acender as lâmpadas, fará o mesmo". 
Providenciai essênciais aromáticas: resina, âmbar, bálsamo, aroma incenso puro, em quantidades iguais. Com elas faça um incenso perfumado, composto segundo a arte da perfumaria, misturando com sal; será puro e santo"

O Reino Vegetal


As práticas sagradas, ou seja, os rituais  que são realizados com a intenção de controlar as Forças da Natureza, assim como as oferendas feitas a Deus ( ou aos deuses), excluem o Reino Animal.  O Reino Mineral  também tem aqui o seu espaço, já que temos o conhecimento do quanto as pedras e metais preciosos fazem parte do instrumental consagrado à prática da Magia ( fazendo parte das vestimentas ritualísticas, por exemplo, mas fugiríamos  do propósito do texto. O fato é que, ao nosso ver, a  exclusão  do Reino Animal das práticas sagradas se explica por sua posição na escala dos reinos da Natureza, pois é sobre ele que se encontram o apoio de forças que deveram em seguida serem transmutadas totalmente pelo Reino Humano, que por sua vez se beneficia do Fogo Mental e tem como missão operar esta mudança a fim de que se elabore o Quinto Reino, o Reino Divino.
É por isso que no decorrer dos séculos, os animais e suas representações se situam entre os rituais trevosos: feiticeiros ou magos "negros"  se utilizam destas forças não-evoluídas do Reino Animal para semear malefícios como a doença, o infortúnio, e em certos casos  até a morte.
Os arquivos judiciários da Idade Média e do Renascimento abundam de relatos de bruxos que diziam  utilizar animais em suas práticas assim como também  certas espécies de ervas, como por exemplo, aquelas pertencentes à família das Solanaceae ( Acônito, Beladona, Mandrágora, Tabaco), entrando também na composição de seus unguentos. Ora, sabemos que algumas ervas desta família são extremamente tóxicas e nárcoticas, então logo entendemos o porquê de sua utilização em certas cerimônias de grupo:  a perda da consciência e do controle sobre os instintos, levavam ao desencadeamento de certas forças primitivas dissimuladas no ser humano, intensificadas por entidades demoníacas, a fim de dificultar a evolução humana.
 Não foi à toa que lhes foram dada a denominação "Ervas do diabo", em oposição às 'Ervas benéficas" ou virginais, que possuiam propriedades benignas,  segundo a terminologia da época. 
Mas é bom lembrar que tanto as ervas benéficas como aquelas do "diabo", podiam se tornar maléficas pelo o uso abusivo, deturpando assim suas propriedades originais.  As próprias Solanaceae's possuem extraordinárias propriedades anestésicas que a medicina medieval soube detectar. Ocultar ou amenizar  a dor física para operar ou até mesmo amputar uma perna não tem nada de maléfico em si.
Todas as Ervas são "por destinação e vocação" benéficas em seus princípios de utilização. Porém, tudo depende, em primeiro lugar da quantidade de misturas e dosagens, e segundo, da intenção da pessoa no momento da preparação. Com efeito,  a intenção é o elemento determinante em todas as operações de Magia Pura.

A Lei das Correspondências

"O Reino Vegetal pelo cheiro que se exala dele, têm imensos poderes fundados sobre a Lei das Correspondências"

Proclo, filósofo neoplatônico, no século V a. C, relata em seu livro De Sacrificiis et Magia  que os sacerdotes  misturavam diversos odores  segundo a Arte Divina que lhe era própria, criando desse maneira um perfume único, dotado de inúmeras virtudes, mas estas desapareciam se cada componente era utilizado separadamente. Isso não significa que a ciência dos Magos estivesse apenas interessada no cheiro, no perfume, pelo contrário, eles eram mais do que precavidos para ignorar que a presença de um único vegetal, sem que lhe seja extraído seu odor, influencia o  ambiente e  provoca transformações etéricas, ainda que invisíveis, mas que de uma maneira ou outra, se materializam no mundo físico.
Mas o odor, emanação amplificada da planta, age mais rapidamente e com uma eficácia acrescida se estimulada pelos os dois grandes elementos universais, o Fogo e a Água. Desta forma, o vegetal doa suas virtudes de modo terno com a Água, e violento com o Fogo.
É importante saber como age a planta "tecnicamente" , ou seja, de que forma seu poder se manifesta. A  Lei das Correspondências pode nos explicar muito bem este processo, mas para melhor comprêende-la, é necessário ter em mente dois elementos: a vibração e a frequência.
O que é a vibração?
Vamos tentar visualizar a seguinte situação: elétrons de carga negativa, gravitando, em um eterno momvimento,  em torno de um núcleo de carga positiva, formam a matéria,  que  aos nossos olhos parece sólida e estática. Este movimento contínuo, esta "valsa" de elétrons denomina-se "vibração", e a matéria resultante de uma determinada  união atômica pode ser tanto um pedaço de carne quanto uma cor ou perfume.

E a frequência?

É a rapidez ou lentidão desta dança, o ritmo. Como uma medida, ela acentua o movimento.  Desta forma, quanto mais rápida a frequência, mais a matéria se desagrega sob o nosso olhar, menos  ela é densa  e visível; quanto mais lento movimento, mais a matéria parece palpável, visível, audível, odorífica...

O mistério das diferentes formas ou "coisas" que existem no Umiverso se repousa  sobre uma única explicação: a diferença entre suas respectivas  frequências vibratórias. O único modo de transformar água em vinho e o vinho em água consiste em saber como agir e  mudar as  frequências vibratórias de ambos, e conhecer tal mecanismo implica possuir imensas faculdades espirituais, mentais e físicas. O Cristo é o exemplo mais conhecido.
Em todo o Universo, todas as coisas, seja materiais seja imateriais ( conglomerado de vibrações com diversas frequências) mantém entre si uma conexão précisa. Todas as formas de manifestação estão interligadas. Portanto, cada forma está em relação com uma cor, um som, um odor e um número.
Uma vez que os Números têm sua origem do Espírito Divino, as cores, os sons, os odores são a a Manifestação,  a manifestação dos quatro Elementos do mundo terrestre.
Na Tradição Esotérica estas relações são denominadas "correspondências" e conhecê-las é dominar a base de toda prática mágica;  aplicá-la é uma da maneiras de atrair determinadas forças para agir, pois número, cor, som e odor ao se corresponderem  criam  um pequeno canal, permitindo a transmissão de energia. O esforço essencial na Magia, além da necessidade de purificação constante e quotidiana, consiste em elaborar um circuito coerente para se obter a força, a energia em questão,  e por sua vez, para se criar corretamente tal circuito, é indispensável ter  bom conhecimento sobre as "correspondências".
Portanto, para atrair uma determinada "força", o Mago faz uso tanto  do número  que rege o plano aonde este é dominante assim como a cor e sons adequados , e um suporte material tangível ( pedra, metal etc) cujo o cheiro, o odor  não  seja que também um componente.
Compreendemos então que o odor, ou mais precisamente, a emanação de uma planta, não representa que uma parte de seu conjunto e  a eficácia de uma operação mágica depende de seu uso  combinado com  os outros Elementos, ou seja, para além do incenso, a chama de uma vela e água de um banho.
E lembre-se sempre: utilize-se  do poder das Ervas para fins benéficos. O conhecimento das Leis Universais e das Leis da Vida  nos demanda a agir dessa maneira. Nada escapa à Grande Lei e todo ato destrutivo não provoca que a ruína do operador. Se algumas pessoas se acham bastante hábeis para fugir do choque do retorno através de práticas "protetoras", saibam que tais práticas podem até retardar as devidas consquências de suas maléficas ações, mas jamais evitá-las.

Paz e Luz!






Fonte: De l'usage des Herbes, Poudres et Encens en Magie,  Mikhaël d'Estissac.
Adaptação: De Keizerin.




















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